Rui Cunha – Entrevista

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Entrevista ao treinador da equipa sénior de futebol do AC Alfenense – Rui Cunha

ÉPOCA PASSADA

Que balanço faz da época transacta?

R: Posso resumir a época passada a um processo de evolução contínuo onde os erros se foram superando dando lugar a uma época que no fim acabou por se aproximar com algo que tinha perspectivado quando aceitei este desafio. Não a classifico como excelente até porque a minha exigência leva-me a uma constante insatisfação. Mas se pegar num ou outro aspecto mais específico como a evolução da ideia do nosso jogo, pegar também no aspecto de sermos uma equipa com uma média de idades abaixo dos 20 anos, pensar também no facto de em Dezembro termos feito um reajuste no plantel mas que passado um mês esse mesmo reajuste foi transformado numa mão cheia de nada, tenho de olhar e ser realista que no meio de uma ida ao inferno estes jogadores quase chegaram ao céu! O objectivo era simples, pegar numa geração soberba e colocar o clube numa classificação melhor do que nas últimas épocas. Se apenas me centrar nisto, o que para mim é curto, foi positivo se quiser levar para um pensamento mais profundo onde contabilize os problemas que tivemos a nível estrutural e somar constantes socos no estômago para lá dos 90 minutos a uma equipa tudo menos madura, leva-me a ter a certeza que atingimos uma marca histórica numa fase em que ainda aprendíamos a gatinhar.

Como explica uma primeira fase do campeonato complicada e depois uma reviravolta incrível? Qual o segredo?

R: É uma pergunta que nos pode levar a diferentes leituras. Se perguntar a cada jogador ou a cada elemento da equipa talvez em 20 respostas tenhas 20 diferentes. Olho para a primeira volta e sobretudo para alguns jogos e centro-me na competência. Refugiar-me apenas no azar de perder mais de 15 pontos após os 90 minutos é uma leitura que não nos permitirá corrigir e crescer. Esses lances e esses pontos perdidos foram permitidos por falta de competência onde assumo toda a responsabilidade. Ponto! Se quisermos atribuir tudo á sorte e ao azar vamos errar mais vezes. Aquilo que fizemos foi nunca deixar de acreditar na “ideia” e no “processo”… A tua identidade não muda só porque perdes mais vezes e os jogadores acreditaram nela. Agarraram-se á ideia e as coisas tinham de começar a bater certo. Quando tens bola mais tempo estás mais longe de perder…quando tens mais confiança erras menos e isso foi lentamente acontecendo. Perguntava-me várias vezes o que estava errado e refugiava-me muitas vezes pensando em respostas simples mas cheguei á conclusão que o tempo iria dar as respostas e foi o que acabou por acontecer. Segredos? Há a tua liderança, há teres os jogadores que nos momentos mais delicados te dão a mão e te levantam e acreditam em ti, há uma equipa técnica competentíssima e que está sempre lá e depois há a qualidade de quem executa aquilo que pensas. Eles são o fim da linha de produção e é graças a eles que tudo resulta. O resto guardo para mim porque há muita gente a ler!

Sentiste alguma vez durante a época passada falta de apoio da Direcção? E em que medida esse apoio ou a falta dele é importante ?

R: O nosso clube é grande de mais para a massa humana que o serve ou se dedica a ele. Obviamente nunca me senti desapoiado e nas alturas mais delicadas senti a confiança tremenda que depositavam em mim e na minha equipa. Depois tive sempre duas pessoas cruciais naquilo que é a solidariedade que uma estrutura deve ter, refiro me ao Rui Pinheiro e ao Vasco Vieira. Eles foram fundamentais no apoio e fizeram um trabalho determinante numa época que em alguns momentos foi difícil. Todas as estruturas têm momentos altos e baixos e o contraditório é fundamental para haver crescimento e sinto que tivemos e vamos continuar a ter uma estrutura sólida e muito focada sempre em sintonia com a direcção do clube.

A aposta na formação foi determinante?

R: A aposta na formação não foi determinante. O que foi determinante foi apostar em qualidade e em competência. Não tinha de ser assim mas quis que fosse assim. Estes miúdos escreveram uma das páginas mais bonitas do clube. Não havia outro caminho, mas mesmo que houvesse nunca lhes viraria as costas. Foram eles que me deram as maiores alegrias e era neles que confiava. Os que outrora desejavam a formação a determinada altura mostraram-se cépticos mas no fim o tempo voltou a por tudo no seu devido lugar e os caloiros como foram carinhosamente apelidados voltaram a atingir os seus objectivos.

Tinhas o plantel mais jovem da Associação de Futebol do Porto como foi lidar com esse plantel num campeonato onde a experiência é muitas vezes determinante?

R: Um desafio. A determinada altura percebes que este campeonato não vive só de talento. Vive de maturidade e aí sim era e foi um risco. Foi uma luta tremenda dia após dia. Tudo leva o seu tempo mas tivemos de queimar algumas etapas no crescimento de muitos. Foi de facto muito desafiante para nós e para eles. Mas volto a responder da mesma forma aquando da primeira questão, valorizo muito mais a competência. Na segunda volta a idade deles era a mesma. O que mudou? Mais qualidade nas acções, mais treino, maior capacidade emocional e vitórias. Ter o mais jovem plantel é e foi um orgulho e não uma dor de cabeça porque se tivesse um plantel com média de 30 anos ninguém me garante que faria melhor ou pior. Talvez tivesse menos trabalho em alguns momentos sobretudo a nível motivacional e mental mas de resto é uma falsa questão no meu entender!

Qual foi o momento da viragem?

R: Momento da viragem? Foram vários. As viragens acontecem à 2ª feira à noite onde olhos nos olhos falamos e corrigimos. Onde analisamos e crescemos. Não houve nenhum dia ou jogo em que senti o click. Esse Click foi acontecendo naturalmente bastava o futebol ser justo. As vezes levam o seu tempo mas acaba por mais dia, menos dia colocar todos no devido lugar. Houve momentos determinantes sim. Houve alturas em acontecem os tais segredos mas esses ficam para nós. É o futebol!

Que jogo lhe fica na memória?

R: Todos. Vivo cada um como se fosse o último. É o dia mais esperado da semana. É o teste. É ali que estão as tuas ideias. O teu pensamento divide-se em 11 e vives aquele momento de uma forma tão absorvente que todos são e foram especiais. Mas aquele em Nogueira da Maia foi um hino!! (Risos)

NOVA ÉPOCA

O que o faz continuar, o que o motiva e porque aceitou o convite para renovar nesta que será a sua sétima época no clube?

R: Os jogadores. Sem eles não aceitaria depois de uma ou outra abordagem. O nosso compromisso é tremendo. Eles aliados a um carinho que obviamente sinto por uma casa que represento há 7 anos e a oportunidade de continuar um projecto e uma ideia não me fizeram pensar 2 vezes. Demorei e ponderei mas os jogadores foram determinantes.

Quais os objectivos, os sócios querem saber e esperam mais e melhor. A Alfenense é candidato á subida?

R: Na época passada mesmo que se tenha passado outra ideia até pela forma como sou ambicioso e todos á minha volta comungam deste sentimento os objectivos traçados foram simples e claros: fazer melhor que em anos anteriores e voltar a encher o estádio. Conseguimos! Este ano todos esperam melhor até pela segunda volta extraordinária que fizemos mas eu tenho os pés no chão e muito embora o plantel seja quase o mesmo a divisão sofreu uma alteração enorme e de repente estamos num campeonato que pode ser completamente diferente daquele que imaginei há um mês atrás. Muitas equipas novas. Três equipas B’s outras que se reforçaram muitíssimo bem portanto nós temos a clara ideia que não podemos cometer os erros do ano passado e que devemos potenciar tudo o que fizemos bem. Mas não vou admitir pressões desmedidas. O campeonato vai ser tremendo e este ano apenas sobem 2 equipas ao contrário do ano passado. Sabemos o que queremos e sabemos como lá chegar. Uma coisa posso prometer é que vão ter de contar connosco desde o início e vamos voltar a proporcionar grandes jogos a esta massa adepta exigente.

Fale um pouco dos reforços para já garantidos.

R: Parafraseando o Sérgio Conceição, os grandes reforços foram a continuidade da grande maioria dos atletas. Esse foi o objectivo número um. Manter uma base em que acredito muito e que com mais um ano nas pernas pode e deve dar frutos. Os reforços foram cirúrgicos e obedecem a um determinado perfil que entendemos que seja o mais correcto para os nossos objectivos e que encaixem no nosso modelo dentro logicamente de um orçamento que temos de respeitar. Não vou individualizar mas posso dizer que todos os que quisemos estão connosco e vêem obviamente com vontade de ajudar e acrescentar qualidade.

A aposta na formação é para manter?

R: A aposta na formação deve ser entendida sob a lógica orçamental mas assenta fundamentalmente na qualidade dos atletas pelo menos enquanto for eu a decidir. Se houver qualidade a aposta é evidente, se não houver teremos de ir buscar a outro lado ou potenciar o que temos aqui, não há muitos segredos. Logicamente, o clube tem crescido imenso na formação o que vai levar a uma aposta mais repetida nos próximos anos fruto dos técnicos da formação que têm desenvolvido um trabalho brilhante. Nesta nova época reconheço que nos sub 19 havia qualidade mesmo numa equipa que infelizmente não se manteve nos nacionais o que por si só podia desvalorizar estes jovens e no seguimento dessa avaliação fizemos algumas propostas para a continuidade. Infelizmente alguns declinaram o convite e agarraram outros desafios o que se torna compreensível numa fase em que o sonho ainda se sobrepõe à razão.

O que sentes quando estás no banco e tens os sócios e simpatizantes da equipa contra ela?

R: Tens de aprender a lidar com essas reacções e sentimentos de frustração de quem segue o clube de lés a lés e não entende as “falhas” mas que no fundo tem o direito á insatisfação e á crítica. Vives numa sociedade em que o futebol é uma paixão, um refugio e todos sabemos um pouquinho desta modalidade. Isto leva a que em momentos menos bons te apontem o dedo mesmo que minutos antes te ponham numa vitrine e digam que és o melhor. Esta bipolaridade é o que faz do futebol um fenómeno amado por todos… Mas analisando a pergunta e percebendo a intenção da mesma, nenhum treinador se sente bem obviamente sobretudo quando sabes que tudo fizeste para que as coisas corressem sempre bem. Depois há aquela crítica injusta que dói e que muitas vezes é feita sem qualquer conhecimento do contexto ou do porquê que aconteceu isto ou aquilo. No fundo a este nível é difícil conseguires chegar aos sócios. Não tens imprensa, não tens flashes após os jogos que te permitam muitas vezes esclarecer os adeptos e isso dificulta o teu trabalho sobretudo em momentos delicados. Sofres muitas vezes em silêncio e sentes cada erro ou cada derrota duas vezes mais que qualquer sócio ou simpatizante, isso é a mais pura das verdades. Tens de conviver com os aplausos e com os assobios e tentar perceber o porquê de eles acontecerem. Uma coisa lhe garanto, prefiro mil vezes um estádio cheio á assobiar pontualmente do que ter um estádio quase vazio com aplausos quase inaudível.

Quais os seus objectivos pessoais para esta nova temporada?

R: Confundem-se sempre com os colectivos. Se atingirmos tudo aquilo que planeio a nível pessoal também ficarei realizado, agora há sempre coisas que pessoalmente quero atingir. Potenciar cada vez mais os meus atletas e poder ajudar a que sejam melhores. Continuar com um compromisso máximo de exigência e em padrões de qualidade máximas que nos distinguem domingo após domingo dos demais naquilo que é o nosso “jogar”, e continuar a crescer não só nas formações fora das quatro linhas mas sobretudo com os jogadores e com uma estrutura técnica que me desafia para problemáticas e novas visões no que toca ao jogo e ao treino e que me envolve e absorve muitas vezes para objectivos que aos olhos de muitos são inatingível. É com base nisto tudo que tenciono cada vez mais ser melhor profissional e fazer com que “eles” me sigam sem hesitar e acreditem nas ideias que tenho para o nosso “jogar”!

Vamos ver alguma mudança naquilo que é o esquema ou as ideias da equipa?

R: A principal ideia sempre foi dominar todos os jogos. Só controlas o jogo se fores maioritariamente dono da bola durante mais tempo. Há quem o controle ou diga que o controla sem ela mas não é a minha filosofia. Quem tem a bola domina o jogo, domina os espaços e os ritmos. Se a conseguires ter mais tempo estás mais perto de pelo menos não sofrer, daí a ideia passar por querer dominar em vez de controlar ou reagires àquilo que os outros te podem fazer. Agir em vez de reagir pode ser um sub princípio da ideia principal que é tentares controlar o jogo com a bola. Incutir essas dinâmicas não passa só pelo trabalho técnico e táctico da equipa. Tens de ter uma mentalidade muito forte para teres confiança naquilo em que acreditas e estarás mais perto de o conseguir. Se vai mudar alguma coisa a nível estrutural não sei, muito dependerá do maior conhecimento sobretudo de quem chega agora ao plantel mas a nível das dinâmicas e da ideia que tenho isso não se vai alterar. Sentimos que estamos no caminho certo e os elogios foram muitos e não foram desmedidos. Somos uma equipa que vai entrar em todos os jogos para ganhar mas percebendo sempre qual o caminho e entendendo os sucessos e os erros que cometemos. Ganhar por ganhar não entendendo nada do jogo não é o que nos caracteriza. Tentaremos ser positivos e agradar a massa adepta com excelentes jogos e obviamente juntar a isso as vitórias que nos levaram a uma maior confiança e entrosamento. Obviamente que depois cada jogo terá a sua própria estratégia que assenta num estudo do adversário mas a nossa ideia é clara e os jogadores conhecem-na muito bem!